domingo, 10 de outubro de 2010

De Oslo na reciprocidade

Um dos princípios que regem as relações internacionais é o da reciprocidade. Academicismos à parte, o auditivamente incômodo verbo “reciprocar” significa fazer com o outro Estado o que ele faz com o seu, seja em privilégios ou restrições. Podiam chamar de “retribuir”, mas aí não teria cara de coisa oficial, jurídica, importante. O caso mais comum é dos vistos de entrada: com a exceção de casos muito pontuais, o Brasil isenta os cidadãos de países que fazem os mesmo com os cidadãos brasileiros. De tanto lidar com isso, acabamos incorporando essa atitude, mesmo na vida pessoal. Parece intuitivamente justo.

Entre as grandes vantagens de se morar na Europa está o fato de que, com pouco tempo disponível e a relativamente baixos custos, é possível conhecer outros países com certa facilidade. Ao contrário de Brasília – e do Brasil, quase como um todo -, em que só pra chegar ali em Belo Horizonte já toma um certo tempo. Aqui, em 6 meses visitei 3 países – Estônia, Noruega e Rússia. A Flávia ainda conseguiu marcar a Suécia e a Dinamarca nos aplicativos do Facebook.

Tudo isso para dizer que recentemente começamos a reciprocar os agrados que nos foram oferecidos até então. Juntamos, assim, os princípios arraigados com a praticidade e fomos até Oslo, passar o fim de semana com a Carol, amicíssima desde outras épocas e outros videokes. Como os assíduos leitores do blog já sabem, ela foi a segunda pessoa a nos visitar, junto com sua mãe, Mira, aqui em Helsinki. A primeira pessoa, meu primo Pedro, mora no Brasil, e vai demorar um pouco até eu poder devolver a visita – mais fácil ele aparecer por aqui de novo, não, primo?


Chegamos em uma sexta à noite, atrasados mais de uma hora por conta do vôo da Norwegian Airlines. Ao menos o aeroporto de Gardermoen, com suas paredes de vidro e pé direito altíssimo, fez-nos esquecer um pouco o cansaço. Não sei se estávamos particularmente sensíveis no dia, mas a primeira impressão foi a de que se trata de um dos aeroportos mais bonitos em que já estivemos. 
 
Estavam lá, firmes, fortes e empolgados, a Carol e o Mateus Zóqui, que eu conheço dos tempos do concurso para Oficial de Chancelaria por meio do qual eu entrei no MRE, nas idas épocas de 2004/5. Ele já está na Noruega há cerca de três anos, e foi extremamente gentil em ir nos buscar de carro, em um aeroporto a 35 km da cidade, e em plena sexta-feira chuvosa. Em breve, será ele que reciprocará nossa visita, e esperamos oferecer o mesmo tratamento VIP que ele providenciou.

Foram dois dias e meio de novidades e diversão. Passeamos na Karl Johansen Gate, uma daquela ruas de tráfego exclusivo para pedestres, cheia de lojinhas, bares e etc. Passamos em frente ao Stortinget, o parlamento norueguês, e esticamos até a prefeitura (Radhus), prédio com uma arquitetura peculiar, em grandes caixotões, e com um saguão de entrada repleto de pinturas que, suponho eu, retrate eventos importantes da história da cidade. Foi nesse momento em que encontramos a Miriam, colega diplomata que também já visitara Helsinki, e almoçamos juntos. Ainda deu tempo, naquela tarde, de visitar o prédio da Ópera de Oslo, que, digo sem medo de errar, se ficasse ao longo do Eixo Monumental, em Brasíia, ninguém iria estranhar. Embora a construção tenha sido completada apenas em 2007, o espírito de Niemeyer vivo deve ter incorporado no tal do Tarald Lundevall, arquiteto do lugar. Rampas, mármore, vidro.... para ser um monumento de Brasília, só faltava o povo chegar atrasado nos espetáculos apresentados.

No domingo, fizemos um “tour” de museus, em Bygdøy, península a oeste de Oslo: primeiro, fomos ao Museu dos Barcos Viking, onde pudemos ver os restos do Oseberg, do Gokstad e do Tuna, todos barcos cerimoniais vinkings (“viquingues " é dureza, me perdoem) encontrados enterrados na Noruega, e datados do século IX. Além dos próprios barcos, vários objetos de época e três esqueletos humanos encontrados fazem do museu um dos mais ricos em artefatos vikings. Os amigos errepegistas (que espetáculo de neologismo!) e os que organizam as festas medievais em Brasília todos gritaram “homem do Norte!” nos ouvidos da minha alma naquele momento. 

Em seguida, fomos ao Museu Fram, que conta um pouco da história das expedições polares.  “Fram" é o nome do navio de madeira, construído na última década do século XIX que, diz-se, navegou mais para o Norte e mais para o Sul do planeta. Absolutamente sensacional acompanhar a coragem – ou loucura, ou ambos – daqueles sujeitos que tinham o comichão de explorar os confins gelados da Terra. Eu não conhecia muito sobre a história de homens como Fridtjof Nansen, Otto Sverdrup e Roald Amundsen. Após a visita ao museu, fiquei me perguntando como Hollywood não aproveita para adaptar para o cinema com mais frequencia aquelas aventuras reais – sobre o tema, há o "Scott of the Antarctic", só que centrado na vida de Robert Falcon Scott, inglês que “perdeu” para o Amundsen a corrida pelo Pólo Sul. Amundsen e Scott dão, hoje, nome a uma estação de pesquisa científica norte-americana no alto platô antárctico. Um abraço aos amigos navegadores, profissionais ou não... Alexei, Bruno, Dani Deiro... bring me horizon!

Almoçamos em um italiano chamado Olivia, com direito a participar – ortogonalmente - da Maratona de Oslo. À tarde, a Carol nos levou para conhecer o famoso Parque Vigeland, que leva esse nome em homenagem a Gustav Vigeland, escultor norueguês da primeira metade do século XX. O Parque tem mais de 200 esculturas em bronze que retratam a condição humana. A expressividade das estátuas é de tirar o fôlego... um crescendo de sensibilidade e, em alguns casos, erotismo, vai ficando mais intenso até que se chega à masterpiece do artista, o Monolito, um obelisco de granito, com quase 50 metros de altura, em que se entrelaçam homens, mulheres e crianças, de diversas idades e com diversas atitudes, e representaria, segundo o material promocional do Parque, “a ânsia e o desejo humano pelo espiritual e pelo divino”. Como todo obelisco também é associado à simbologia fálica, deixo para vocês interpretarem.


Antes de nosso passeio na Noruega acabar, passamos na casa da Miriam, para oficializar a reciprocidade, e torná-la mais completa. De brinde, ganhamos uma das vistas mais bonitas de Oslo, direto de seu sótão cheio de estilo, como ela mesma o é. O domingo terminou com uma quase tradicional pizza, junto com a própria Miriam, o Mateus e a Carol. Boa pizza e bons amigos – quem pode pedir mais do que isso?

Embora seja menor em área e população do que Helsinki, Kristiania, ou, melhor, Oslo, deixou a sensação de ser uma cidade mais... animada, talvez. Além disso, parece ser... elegante, talvez. Por outro lado, a cidade é, pelo menos, uns 30% mais cara do que Helsinki. No pouco tempo que passamos, vimos mais regiões com movimento e atrações. As pessoas pareceram mais abertas, mais sorridentes, e, em várias lojas e restaurantes, faziam questão de perguntar de onde Flávia e eu éramos, sempre de uma forma simpática.

Creio, entretanto, que essa sensação possa vir do efeito  “novidade + grama do vizinho”. Enquanto avalio e comparo as cidades me pergunto... será que elas também avaliam seus visitantes?  “Aquele ali não entendeu nada da minha alma...”;  “uhmmm esse casal só conheceu meio bairro e acha que pode dar palpite...”; “adorei esse aqui, fugiu dos tourist traps e me entendeu na primeira olhadela...”. 

Será que as cidades reciprocam?

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Outono chegou!


A outra pessoa que participa desse blog, com suas fotos incríveis (kkkk), resolveu que iria falar um pouquinho sobre suas percepções dessa terra maravilhosa que é a Finlândia.

O outono chegou oficialmente no calendário dia 23 de setembro, e, com ele, a transformação da natureza e das pessoas. As árvores já começaram a ficar com suas folhas em tons que vão do amarelo ouro ao vinho, as pessoas se vestem em camadas e cachecois, luvas, casacos, qualquer coisa que aqueça é peça essencial no guarda roupa.

 Fim de semana passada fomos finalmente conhecer Oslo e reencontrar amigos que vivem por lá (falaremos em detalhes em outro post), saímos de Helsinki dia 24 com a temperatura na média dos 14 graus, e voltamos três dias depois para uma Helsinki mais fria, mas não menos bonita. Hoje pela manhã estava 4 graus, com sensação térmica de 1 grau... É, caros amigos, o outono chegou para ficar e se agasalhar.
PS: em breve a continuação dos post sobre São Petersburgo, e outros que estamos devendo...

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Tende Pietari de nós – Parte 2

Na saída do restaurante, tivemos a oportunidade de ver e tirar fotos da igreja que tem o nome mais sensacional no planeta: Igreja do Salvador sobre o Sangue Derramado. A catedral, com suas abóbodas de cebola (não ri não, o nome é esse mesmo) coloridas e uma profusão de detalhes típica das ortodoxas russas, ganhou esse simpático nome graças ao fato de que, em 1881, o Czar Alexandre II foi assassinado pela Narodnaya Volya (Vontade do Povo), grupo  terrorista que lutava pela convocação de uma Assembleia Constituinte, sufrágio universal, liberdade de opinião e imprensa, propriedade da terra, reformas socialistas e essas outras coisas que pobre gosta. Alexandre III, sucessor do assassinado, resolveu construir, no local do crime, a tal Igreja.


Essas e outras informações, trazidas, pela Tatjana com um fôlego digno de guia mirim do Nordeste, nos fizeram pensar em como a história da Rússia é violenta. Por exemplo, o Czar Paulo I mandou construir o Castelo de São Miguel (ou Mikhailovsky zamok) cercado por canais fluviais, e cheio de pontes levadiças, cercas vivas e passagens secretas, tamanho era seu temor de ser assassinado. Resultado: após apenas 40 dias de residência no castelo, foi vítima de uma conspiração militar. Isso sem falar no caprichado assassinato do Rasputin, conselheiro místico dos Romanov, e dos 27 milhões de soviéticos mortos durante a 2a Guerra.

Por falar em Rasputin, nosso motorista era o Vladmir, sósia do Monge Louco, e trombonista profissional que ganha uns trocados a mais no mercado do turismo enquanto a orquestra está em recesso de verão. Ao chegamos na Fortaleza de São Pedro e São Paulo, minha febre já tinha voltado, e eu contava os minutos para descansar no hotel. Mas ainda dava tempo de aprender que a Fortaleza foi o marco inicial da cidade, construída no início do século XVIII para resistir a eventuais ataques suecos durante a Grande Guerra do Norte. Para variar, mais histórias de sangue: centenas de trabalhadores morreram durante sua construção e, posteriormente, o local foi palco de tortura e reclusão de prisioneiros políticos. Uma graça.

Na Catedral de São Pedro e São Paulo, pudemos ver os túmulos de diversos czares russos (aliás, de todos, exceto Pedro II e Ivan VI), bem como dos Romanov assassinados pelos bolcheviques. Aliás, mais um conto de sabedoria: depois de conduzidos a uma sala da casa do Engenheiro Nikolay Ipatiev, onde eram mantidos prisioneiros, Nicolau, sua família, o médico pessoal e mais uns servos que não tinham nada a ver com a história foram fuzilados pelos soldados. A sabedoria, no caso, está no fato de que o Czar foi o primeiro a morrer, enquanto sua esposa e filhas demoraram um pouco mais, e precisaram de uma ajuda das baionetas, porque usavam muitos diamantes e outras pedras preciosas costuradas em seus vestidos. Diamonds are a girl’s best friend.


Antes de irmos para o hotel, fomos levados a uma pequena sala da Catedral, onde um grupo vocal russo entoou cânticos religiosos, eu acho. Vou contar a vocês... eu, que já ouvi muita música vocal na vida, fiquei com a sensação que aquele baixo profundo que segurava os harmônicos do grupo desfez várias pedras nos rins da audiência. Na saída, Tatjana nos contou ainda que, até a década de 1960, a agulha da Catedral de São Pedro e São Paulo, coroada por um anjo, era o ponto mais alto de São Petersburgo. Soubemos, igualmente, que, durante a II Guerra Mundial, as abóbadas foram pintadas (coitado do estagiário...) de cinza para dificultar os bombardeios.

Chegamos ao Hotel Dostoevsky só a tempo de eu apagar de gripe. A partir de agora, o relato é baseado em comentários da Flávia. Uma vez constatada minha completa incapacidade de sair para jantar, a heroica esposa buscou pelo serviço de quarto. A curiosidade é que nesse hotel, para ter acesso ao cardápio, é preciso pedi-lo por telefone. Antevendo demora e dificuldades, ela se aproveitou do fato do hotel ser encravado em um shopping centre, e conseguiu comprar, entre visitas a um mercado e a um café, um sanduíche, biscoitos e chá quente. É claro que isso tudo foi feito com a linguagem da mímica e do profunda proximidade – nenhuma – entre o português e o russo. Segundo ela, o máximo que conseguiu foi encontrar alguém que balbuciava inglês.

Tendo deixado provisões para o moribundo, Flávia e seus pais saíram para jantar. Optaram pela segurança de um restaurante italiano, o Palermo. O primeiro estranhamento foi a ausência de um taxímetro no táxi. Aprenda, camarada, que, em São Petersburgo o preço das corridas é combinado antes. A maioria dos trechos que fizemos ficaram entre 16 e 22 dólares. No Palermo, ao contrário da experiência do shopping, a Flávia encontrou um garçom simpático e fluente em inglês, e a comida justificou, segundo ela, a escolha.


Após o jantar, os três doidos resolveram que, já que não estavam muito longe, voltariam andando para o hotel – apesar de todos os alertas feitos por guias, motoristas, camareiros, balconistas e etc sobre a falta de segurança da cidade. Mais Brasil do que Finlândia, como eu disse. Logo na saída do restaurante, um senhor com uma farda aparentemente policial cruza com o grupo e fala algo – em russo, claro. Na minha opinião ele estava querendo comprar a Flávia, mas, como não recebeu muita atenção, ele entrou em um carro próximo e foi embora. Houve, entretanto, pelo que se conta, um certo momento de tensão até que a cena tivesse seu desfecho.

 Depois da quantidade de sangue que já espirrou deste post, é bom contar que a turma chegou são e salva no hotel, não sem antes ter registrado um dos ícones da vitória da guerra fria, o McDonald’s em solo russo. Ou vocês não se lembram das filas quilométricas quando o primeiro abriu em Moscou, em 1990?

A esposa afirma até hoje que, durante o jantar, tomou apenas meia taça de chianti. Eu tenho lá minhas dúvidas... ao chegar ao hotel, e me encontrar um pouquinho melhor, ela ligou a TV e assistiu a um bom pedaço do Senhor do Aneis em russo... e achando bom! Segundo ela, a língua combina, deixa o filme mais soturno...  Ah, стоп, Flávia!

(continua)

domingo, 12 de setembro de 2010

Tende Pietari de nós – Parte 1

As visitas à Finlândia continuaram, o que nos fez ficar muito felizes pelo fato de termos amigos e familiares queridos, que não nos esquecem. Para outros – principalmente aqueles que cobram novos posts, lêem o blog, mas não comentam, – a gente faz um voodoo bem legal.

Recebemos Sarah e Renato, dois grandes amigos (“amigo”, sinceramente, descreve pouco o que os dois são para mim). As aventuras deles por aqui eu comento em outra oportunidade. Em seguida, recebemos Cacilda e Messias, também conhecidos como os pais da Flávia, ou meus sogros. Eles passaram três semanas, mais ou menos, com a gente.

Logo após chegarem a Helsinque, eles e Flávia seguiram para viagens escandinavas. Conheceram Estocolmo e Copenhague. Fizeram uma rápida parada em Helsinque e passaram um dia em Tallinn. Sobre essas viagens, cobrem a co-autora do blog, que não se dignou a colocar uma foto ou comentário online.

Depois de matar a saudade da esposa – esse negócio de ficar longe dela definitivamente não é bom – viajamos os quatro para São Petersburgo – ou Pietari, como dizem os finlandeses -, no dia 3 de setembro. Pegamos o trem “Sibelius” na sexta-feira, logo cedo, e partimos em direção à mother Russia. Eu estava preocupado em conseguir efetivamente aproveitar a viagem – ou, ao menos não atrapalhar muito a dos meus companheiros: uma forte gripe havia me deixado de cama antes da viagem, e eu ainda não havia me recuperado totalmente.

São cinco horas, mais ou menos, de trem até lá. A viagem, em si, não demoraria tanto, não fossem todos os procedimentos de alfândega e imigração. Para os brasileiros, independente do tipo de passaporte, a coisa toda ficou mais fácil, já que, desde meados de 2010, entrou em vigor o Acordo entre o Brasil e a Rússia para a Isenção de Vistos de Curta Duração. Na dúvida e por segurança, levamos uma cópia do Acordo, em russo, no bolso. Entre os Governos decidirem algo e o guardinha de fronteira ficar sabendo e incorporar no dia a dia, às vezes pode levar algum tempo...  No caso da nossa viagem, tanto as autoridades russas quanto finlandesas aparentemente já estavam notificadas, e não houve qualquer problema para atravessarmos a fronteira. 


Viajar em paz, entretanto, está se tornando uma utopia... embora o trem fosse confortável, com cadeiras reclináveis, vagão restaurante bem razoável e companhia muito bem vinda, é difícil ter um mínimo de sossego – ainda mais quando se quer descansar durante o trajeto - quando os pais não controlam suas crianças. No caso do vagão que ocupamos, não bastasse ter duas crianças chorando e urrando boa parte da viagem,  os pais ainda achavam graça quando ela iam perturbar os outros passageiros. Nada contra os piás, que estão fazendo a parte deles...  pais mal educados e despreparados é que são o problema.

Você acha uma gracinha seu filho querer quebrar o recorde de decibeis alcançado por um ser humano?  Vou contar uma novidade para você: não, não é legal. Você acha que a criança deve explorar o mundo e conhecê-lo?  Concordo plenamente, mas não a custa do sossego alheio. Há lugar para tudo, zezinho, inclusive pro seu pestinha aprender a conviver em espaços comuns. Depois, cresce e vira adulto sem noção de coletividade, e você ainda vai achar ruim.

Após uns 40 minutos parados na imigração, para que os passaportes fossem recolhidos, verificados e devolvidos, entramos em território russo. Em termos de paisagem natural, não há grandes mudanças em relação à Finlândia – corredores intermináveis de coníferas se erguem ao lado do trem. Notamos, entretanto, alguns sinais de menor conservação e organização nas construções que vimos.


Devo confessar que não tinha qualquer expectativa especial sobre a cidade. O desejo de conhecer a ex-capital da Rússia foi manifestado pelo Messias, e eu tinha mais interesse em aproveitar o tempo com eles do que propriamente uma curiosidade intrínseca naquele passeio específico. Claro que a faceta de historiador acabou desperta, e todos os filmes sobre espionagem na época da Guerra Fria fizeram com que eu me emocionasse por estar, pela primeira vez, do lado de lá da cortina de ferro.

Havíamos decidido, desde que soubemos da visita dos pais da Flávia, contratar um pacote turístico junto a uma companhia finlandesa. Todos alertavam para o fato de que São Petersbugo não era Helsinque – ou seja, o conhecimento da língua inglesa não era tão difundido, e a cidade não era exatamente o paraíso da segurança mundial. Assim, ao chegarmos à São Petersbugo, nossa guia, Tatjana, uma russa muito educada, com inglês (e francês, e italiano, e um pouco de espanhol, e um pouco de alemão...) fluentes já nos aguardava na plataforma da Finlyandskiy vokzal, ou seja, da estação de trem que recebe os trens vindos da Finlânia e da qual eles partem de volta.

Além de nós quatro, outros dois simpaticíssimos casais australianos se juntaram à nós na excursão. Na saída da Estação, aquela inconfundível e nada saudosa sensação de Terceiro Mundo: um caos de gente pelas calçadas, camelôs, gente querendo abordar os turistas, carros lutando entre si... São Petersbugo está muito mais para Rio de Janeiro do que para Helsinque...

Entramos, não sei exatamente bem como, sãos e salvos em nossa van, e seguimos para nosso primeiro destino. No caminho, pudemos ter uma primeira noção da cidade, e o que posso dizer é o seguinte: grandiosa, grandiosa, grandiosa. Absolutamente de tirar o fôlego, e creio que era essa a ideia do Czar Pedro, o Grande, quando a fundou em 1703. Há um certo ar de decadência em algumas áreas da cidade, mas, mesmo assim, os prédios, palácios e catedrais que se espalham às margens do Neva são belíssimos, imensos, impressionantes. Nosso traslado serviu, igualmente, para percebermos que, se já somos analfabetos na Finlândia, as placas em cirílico só agravam a sensação.  

A primeira parada foi para o almoço, em um restaurante chamado – ora, vejam, que criativo – São Petersburgo. O local era requintado, cheio de espelhos e vitrais, e aconchegante. O que não ornava, nem um pouco, era a trilha sonora de disco music setentista. Fiquei com a impressão, por aquele e por outros cenários da cidade, de que os russos não tiveram acesso a música ruim do chamado “Ocidente” quando era a hora, e agora estão recuperando o tempo perdido. Pelo que lemos nos guias, há show de música folclórica russa todos dos dias, exceto aos domingos, às 21h – deve ser para pagar os pecados do disco inferno.


Durante a refeição, a Flávia se apaixonou pelo visual da sopa que foi servida como entrada: ela vinha dentro de uma cumbuca de barro, coberta por uma massa de pão. A sopa, em si, era de repolho azedo, que a Flávia quer me convencer que era boa. Quando começava a crescer meu medo do prato principal ser à base de frutos do mar, um Frango à Kiev (mas peraí, Kiev não é na Ucrânia???) foi servido para alimentar a turma. Tortinha de frutas vermelhas como sobremesa, e lá fomos nós conhecer a Fortaleza de São Pedro e São Paulo.

(continua)

sábado, 21 de agosto de 2010

Eterno

 Todos os dias, quando atravesso duas das cinco ruas que se encontram em Viiskulma, para ir pegar o bonde para o trabalho, sinto-me um pouco alienígena. A farda diplomática clássica – terno sóbrio,  gravata discreta -, absolutamente inadequada para o clima dos trópicos, também parece fora de lugar em um país em que a informalidade das vestimentas é o padrão.

Não bastassem as feições de terrorista afegão, que me identificam automaticamente como estrangeiro, em meio aos escandinavos cabelos brancos, o uso do terno atrai a atenção de quem passa. E não se trata do olhar feminino de interesse – “nossa, como ele está elegante” ou o “adoro homem de terno” da falsa mitologia. É mais um ar de estranhamento, de distância. Quando decido utilizar colete por baixo do terno, a máquina do tempo apronta-se de uma vez.  

Hoje, ao menos, ocorreu uma semi-exceção. Ao entrar no bonde, sentei-me de frente a um senhor bem idoso, vestido irrepreensivelmente, desses que a gente não vê mais. Seu terno era preto, a gravata era de um cinza médio, cor de filme antigo, e os sapatos lustrados com zelo.  Eu vestia um terno grafite, com gravata em arlequins de azul marinho e prata. Mais moderno no corte e nas cores, mas tão estranho àquele ambiente quanto ele.

Como a chuva marcava o início do outono, ambos portávamos guarda-chuvas – não esses retráteis da modernidade, mas os mais antigos, longos, com cabo de madeira, e capazes de oferecer proteção com competência para seus donos – e, quem sabe, para uma donzela desatenta ao clima.

Sua indumentária era completada por um Fedora da mesma cor do terno, o que só me encheu de inveja positiva. É um dos meus mantras repetir que o mundo era um lugar melhor quando os homens usavam chapeu. Em Brasília, além de aumentar a sensação de calor, o uso do chapeu é quase motivo de chacota. Eu ando querendo comprar um chapeu-coco, e quem sabe esse encontro fortuito seja decisivo.

Entre nossas diferenças, além da idade, estava o fato de que ele tremia um pouco, de quando em quando, já com seus sintomas de velhice estabelecidos. Além disso, seus olhos pareciam bem mais vivos que os meus, talvez pelo acúmulo dos anos ter causado a ele menos cansaço. Como cavalheiros de outrora, trocamos olhares de cumprimento – e, por que não, de cumplicidade - na minha descida do bonde.

Éramos dois senhores bem vestidos. Eu, por obrigação profissional, e ele, especulo, por estar se dirigindo a algum local ou evento importante – embora, em plena quarta-feira pela manhã, batizados e casamentos estivessem excluídos. Quem sabe ele não estivesse indo visitar o túmulo de sua esposa, que, em outros tempos, assim como a minha faz hoje, o ajudava corrigir um último amarrotado no paletó antes de sair de casa, e tornar o sujeito ainda mais alinhado. Ou, talvez, os de outros amigos, que também usavam ternos pelos bondes da vida, menos deslocados do mundo ao seu redor.


terça-feira, 17 de agosto de 2010

Heavy Metal 3D

Antes mesmo de vir morar na Finlândia, eu já tinha noção de que se tratava de um país peculiar do ponto de vista musical. E eu não me refiro à música tradicional - sami - ou ao nacionalismo de Jean Sibelius, o Carlos Gomes deles. Eu estou falando é do bom e velho rock: tanto colegas esgrimistas quanto o pessoal da lista Gótico-DF já tinham me chamado a atenção para o fato de que, na Finlândia, a chamada “cena metal” é muito forte. 

Ainda no Brasil, tive a curiosidade de entrar no site da Stockmann, a grande loja de departamentos de Helsinque, e dar uma olhada na lista dos CDs mais vendidos. Em primeiro lugar estava uma cantora inglesa, a Sade, e, logo em segundo, vinha a banda finlandesa HIM - uma espécie de Roupa Nova deprê do metal, que eu já conhecia e gostava há vários anos. Naquele momento eu já tive uma noção de como seriam as coisas: quando é que eu ia ver uma banda de metal encabeçando as paradas das Lojas Americanas?  

Em um país de musicas engraçadinhas, Ivetes, Cláudias e, quando muito, Marisas, quem gosta de rock virou órfão há umas duas décadas. Eu tenho uma teoria seríssima de que os produtores de Rio e SP, membros da SS cultural brasileira, ao verem que a maioria das bandas boas de rock eram de Brasília, trataram de sabotar o ritmo ao longo dos 1990s. E eu não vou nem entrar no mérito da década de zero, para não ficar deprimido. 

Ao chegar por aqui, só pude reforçar a boa impressão. O tiozinho do ônibus da Ikea, do alto de seus 50 e tantos anos, ouve rock enquanto dirige; há bares de rock espalhados pela cidade - dentre os quais o PRKL, o Stage Bar e o On the Rocks; o Dante's Highlight tem um palco para shows de “bandinhas” maior do que qualquer outro que Brasília já tenha visto; e, para coroar a diversão, há um karaoke especializado em heavy metal e hard rock, chamado, apropriadamente, de heavy corner. Meus queridos amigos Zeca, Ed, Montana, Conatus e companhia ajoelhariam no chão, e chorariam dizendo “nós não mereceeeemos... ” 

Encontrar gente cabeluda, vestida de preto, cheia de brincos e tatuagens, aqui em Helsinque, não é coisa de nicho, de subsolo de Conic. E pode ter certeza que, ao entrar em qualquer loja que venda CDs e DVDs, haverá uma sessão enoooorme especializada em rock.  

Aliás, outro dia eu estava lendo em um jornal daqui que na Finlândia tudo vira rock:  se misturar amor com rock, vira o love metal do HIM; ópera com rock vira o Nightwish; música erudita com rock vira o Apocalyptica, e por aí vai. Até na hora de ganhar o  Eurovision - festival anual e super concorrido aqui na Europa - a Finlândia emplaca uma banda de rock, o Lordi. E, para os fãs de Guns n'Roses, recomendo uma procura por Hanoi Rocks, no You Tube, para vocês terem noção de que originalidade é uma coisa bem relativa. 

Interessado em assistir algumas dessas bandas de perto, eu tentei, recentemente,  ir ao Sonisphere, festival realizado em Pori, cidade na costa oeste da Finlândia. Infelizmente, embora houvesse ingressos disponíveis, não consegui, nem com a ajuda do caríssimo Lucas, encontrar um hotel por lá. E, para ficar na camping area, vocês vão me desculpar, mas já não tenho o humor necessário. É bom que se diga que eu escapei de boa... Exatamente no final de semana em que ocorreu o festival, uma tempestade vinda direto do inferno despejou-se sobre a Finlândia: tamanho foi o vento que, lá em Pori, partes dos palcos e pedaços das grades se soltaram e atingiram a multidão de headbangers, ferindo 40 pessoas e alegrando outros tantos, em um autêntico festival de heavy metal 3D !
  

domingo, 8 de agosto de 2010

Pensão em ação

Quando estávamos procurando apartamento para alugar em Helsinque, mantínhamos em mente a necessidade de encontrar um lugar que oferecesse espaço confortável para a acomodação dos hóspedes. O valor do auxílio pago pelo Itamaraty comportaria um local grande o suficiente, e, além disso, Flávia e eu gostamos de ter pessoas queridas por perto, e de recebê-los.

Como viemos morar na Europa, sabíamos que, cedo ou tarde, teríamos boas visitas, entre amigos e parentes. Ademais, depois de se tornar diplomata, você naturalmente passa a ter colegas em vários pontos do mundo, então fica bem mais fácil e comum esse intercâmbio de sofás e camas de hóspedes.

O pioneiro na ocupação das instalações do Pentágono (apelido de nosso pequeno esconderijo) foi o primo Pedro. As relações de parentesco em Minas Gerais merecem um pós-doutorado em antropologia, mas nesse caso era uma relação simples de segundo grau: Pedro é filho de uma prima da minha mãe. E, muito mais importante que isso, foi um daqueles casos de amizade fácil e instantânea: embora só tenhamos nos conhecido há poucos meses, e embora tenhamos uma diferença de idade que ultrapassa uma década, rapidamente nos enturmamos e viramos parceiros de longa data, ainda que de poucas datas.



Pedro chegou no dia 30 de junho e, logo em seguida, no dia 02 de julho, Carol e sua mãe, Mira, chegaram a tempo de ver o Brasil perder da Holanda na Copa do Mundo, com direito a previsão precisa da Maga Flávia. Ainda assim, foi um fim de semana divertido, e espero que todos tenham gostado da acolhida. Durante a estada de Mira e Carol, finalmente fizemos um sightseeing de Helsinki – só que não de ônibus, e sim de barco, para aproveitar o bom clima do verão e ter uma visão da península onde a capital finlandesa está situada, bem como de algumas das ilhas em torno dela, com destaque para o grupo de ilhas onde está situada a Fortaleza de Suomelinna. Quando formos de verdade explorá-la, eu conto mais detalhes.

 
Os próximos a usufruir dos bons préstimos de Flávia foram Pedro (outro pedro!) e Miriam, colegas diplomatas que passaram por aqui agora no início de agosto. Ela vinda de Oslo, ele de Bratislava. Neste caso, eles não ficaram hospedados aqui em casa (porque não quiseram, hein!), mas nos visitaram para saborear uma das especialidades da esposa, um quiche delicioso. Aproveitamos para tomar uma cerveja juntos no Perkele, barzinho de rock indicado pelo Lucas, e para falar bem e mal da vida.

Por falar em Lucas, merece menção especial o apoio que ele tem dado a praticamente todas as nossas iniciativas aqui em terras Suomi. Lucas é brasileiro, mora por aqui há uns quatro anos e trabalha na nossa Embaixada. E, sem ele, certamente a adaptação estaria sendo bem mais complicada – viva viva, salva de palmas, aquelas coisas todas, e muito obrigado. E pára de me chamar de Chefe.


 Na mesma semana – ou seja, esta durante a qual vos escrevo -, o Guilarducci Inn recebeu Andre e Bruno, mais dois colegas diplomatas, em tour pelos lados menos CVC da Europa. Quem quiser acompanhar a aventura dos dois, procure “Ondéquistão” no Google. Mais boas companhias, mais diversão. O melhor disso tudo é que na diplomacia existe um princípio básico chamado “reciprocidade”... portanto, Pedro, Miriam, Andre, Bruno, e etc, podem preparar os colchonetes...

Assim que terminar de escrever, lá vou eu ajudar a Flávia a preparar a casa para as próximas levas de visita. Esta semana chegam Renato e Sarah, e, na semana seguinte, meus sogros pousam por aqui para verificarem de pertinho que história é essa de levar a filha deles pro outro lado do oceano.

Na esfera das intenções declaradas, além da minha mãe, tenho o Professor Joanisval, Andre(a Doria) e esposa, e quem mais? As reservas estão abertas... E ganha bônus quem se aventurar a vir para um Natal branco, igualzinho a dos filmes, e bem congelado, conosco...